Cadê o sorriso do vovô que estava aqui?
Já era tarde quando o telefone tocou. Logo após o meu alô, vovó foi dizendo apressada: “Faz horas que o seu avô está aqui andando de toalha, aperreado pela casa, porque não consegue lembrar onde deixou a dentadura!”.
Segurei o riso, imaginando a cena, e fiz um rápido cálculo mental se aquele era um bom motivo pra ir até lá de novo. Já era noite e tínhamos passado hooras resolvendo pendências.
Não fui. Mais cedo ou mais tarde, ele havia de achar o sorriso esquecido em algum canto por aí.
Estaria a dentadura junto com os extratos do banco, que vovô examina cotidianamente? Talvez entre os livros da estante, que ele abre de vez em quando para ter o prazer de encontrar as mesmas palavras e constatar que “são os melhores amigos, pois não mudam de opinião”? Quem sabe, esquecida em alguma caixa com fotos catalogadas de tempos remotos em Portugal, sua terra amada?
Dia seguinte, telefone tocou de novo, e era vovó avisando: “Sarinha, quase 1h da manhã ele percebeu que a dentadura estava na própria boca!”.
Gargalhei alto da ironia. Às vezes, a vida capricha. Perde a paciência e manda o recado direto: achar a alegria de viver é tarefa pessoal e intransferível, mas o caminho é sempre o mesmo. Pra dentro da gente
No Comments